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Fora da curva




Lição no metrô

Acordei para mais um dia de trabalho. Difícil abrir os olhos e mais difícil ainda não me sentir extremamente depressiva ao ver que não tenho mais celular, documentos e todas as minhas coisinhas. Uma tristeza enorme se abateu sobre mim, mas tem outro caminho se não caminhar ao metrô e trabalhar para comprar tudo de novo?

Entro no vagão e logo que encontro um lugar para sentar, um senhor me estende um papelzinho todo amassado. Cansada, triste e de muito mau humor, não quero ler o papel. Claro, tenho certeza de que é mais um pedinte. Ele olha para mim, a pele tostada por um sol doído e persistente e me lança a frase: "Filha, você sabe onde fica essa rua?". Ainda a contragosto, olho o endereço. Antes de qualquer coisa, minha mãe me deu educação, não posso ignorar aquele senhor. Deus, por que não me permite ignorá-lo?

Olho para o papel e não consigo entender o que está escrito. Pergunto e o homem me responde: "Acho que o nome da rua é Marechal Deodoro da Fonseca, eu tô perto?", pergunta ele. Ouço o endereço que ele me diz e o que tento compreender no papel e juro que não acredito. O endereço anotado era incompreensível. "Sabe, filha, vim lá du Norte. Tô um pouco perdido. Que estação eu tenho de descer?"

Eu enfim acordo, olho para aquele rosto sofrido, mas resignado e olho para qual estação estamos. Era Santa Cruz. "O senhor já passou da estação, o senhor de tem de descer na Sé. Basta o senhor descer na próxima estação, subir as escadas e descer do outro lado (mostro o trem que passa na direção inversa), aí o senhor pega esse metrô e desce na Sé. Depois o senhor desce e pega outro metrô, tem uma placa escrita Barra Funda, a estação Marechal fica bem pertinho".

"Filha, eu não sei ler. Como eu vou saber qual a estação que tenho de descer?", perguntou desesperado. Meu coração se apequenou, minha alma doeu e minha consciência me acusava por o ter desprezado de início, por sofrer pelo meu assalto enquanto pessoas não sabiam ler. Parece exagero, mas isso se passou por milésimos de segundo em minha mente. Minha vontade era de pegar a mão do velhinho e levá-lo até lá, mas o que eu iria dizer ao meu chefe? "Sabe, boss, achei um velhinho analfabeto e resolvi levá-lo até a Marechal Deodoro...", pensei. Não que ele não fizesse o mesmo, mas seria difícil acreditar.

"Bem, vamos fazer assim. Tá escutando esse barulhinho de quando abre a porta? Toda vez que o senhor escutar um barulhinho é uma estação. Se o senhor puder prestar atenção, o moço às vezes fala o nome da estação. Mas vamos lá. O senhor tem de escutar 10 apitos como este. O senhor desce na próxima, atravessa para o outro lado, sobe as escadas e pega o metrô de novo. Conta 10 apitos e o senhor chegou na estação Sé. Quando o senhor chegar lá, desce do lado esquerdo e vai ter uns homens de preto aí o senhor pergunta para eles como chegar na estação Marechal", expliquei, tentando ser bem didática e falar devagar.

"Filha, obrigado. Essa São Paulo é muito grande. Prefiro a minha cidade, amanhã eu já volto para lá. Tchau", me disse.

Ele desceu e meu coração, apesar de ainda culpado por não ter levado o velhinho até a estação, se encheu de luz. Junto com ele, meus olhos se encheram de lágrima. Depois disso, meu dia foi só felicidade. Obrigada pela lição! 



Escrito por Foradacurva às 16h24
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Comer, rezar, amar

A última vez que resisti a ler um best-seller dei com os burros n'água. O livro em questão era um tal Harry Potter, um bruxinho que a cada dia angariava fãs no mundo inteiro. Quem me conhece sabe o quanto essa opinião sobre a série mudou...

Desta vez o livro em questão é Comer, rezar, amar. Fazia tempo que via este nome na lista dos mais vendidos, mas relutava em ler um livro que parecia só ser mais um auto-ajuda. Depois de ver uma promoção muito bacana na Fnac, cedi ao charmoso e comercial nome do livro.

Escrito pela jornalista Elizabeth Gilbert, o livro tem sim muitos conselhos de auto-ajuda, mas não tem a pretensão de dizer a alguém como agir ou como se sentir, mas de contar a história da própria autora em sua busca pelo autoconhecimento. Todos fazemos isso de certa forma ao longo da vida e em algumas fases, o que se retrata de diferente é que ela escolhe uma maneira corajosa de se descobrir: viajando pelo mundo e desbravando a si mesmo.

Ouvi algumas pessoas dizerem que é um livro muito feminino, por que retrata sua dolorosa separação e como uma mulher tende a definir seus sentimentos, mas o melhor de Comer, rezar, amar é justamente esse, Gilbert não esconde seus sentimentos, suas dores, seus desejos, seus horrores. O best-seller nasce de uma decisão muito simples e hoje bastante criticada: ser sincera.

Gosto de livros que me emocionam, me fazem rir sozinha, me fazem chorar em um único parágrafo e me fazem sentir falta de suas páginas ao longo do dia. A jornalista relembra em cada página o mantra que tento repetir todos os dias: "a vida é muito curta. dê valor ao que tem valor". Então, você se vê na mesma cantina em Roma em que ela descreve os pratos e os papos; emociona-se com a sua busca incessante por silêncio, paz, aceitação, recomeço e mergulha de cabeça quando aceita o amor que lhe é dado e que pode dar.

Nunca parei para pensar na minha pirâmide de prioridades pessoais, mas o livro me fez ter certeza de que lazanha, fé (em algo maior, em mim mesma e nos outros) e família estão na base de minha vida. 



Escrito por Foradacurva às 21h06
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Coringão voltou

Era sábado, um dia tão quente, mas tão quente que qualquer roupa incomodava o corpo. Quase 3 horas da tarde e pegamos o metrô rumo ao Pacaembu. Já na nossa estação começou a entrar alguns outros vestidos de preto e branco. A cada nova estação, mais e mais torcedores se uniram a nós. Sabe aquela cena do V de Vendetta que as pessoas vão pulando de todos os lugares e se únem por um único sonho? Pois é, foi essa a sensação que tive ao desembarcar nas Clínicas e me unir a milhares e milhares de outras pessoas.

Poderia ser a chance do Corinthians voltar à primeira divisão, mas também podia ser mais uma partida do time. Na torcida uns poucos cearenses, nosso mortal inimigo daquela tarde. O sol, a pino, torrava a todos, cada um se defendia como podia e os rapazes vendiam felizes das vida os copinhos de água a R$ 2 e os sorvetes de coco, morango, limão por R$ 4.

A torcida, como sempre, se uniu para ajudar o time e comemorar o esforço para voltar à primeira divisão. No campo, os rapazes, diante de um time aguerrido, mas sem grandes estrelas, não teve problemas para marcar o primeiro gol. Pena que não existe replay nos campos e poder gritar novamente gooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooool.

O mais bacana do estádio de futebol é mesmo a torcida. No campo, os rapazes se esforçam para correr atrás de uma bola quase sempre quadrada, mas é na geral que o jogo ganha corpo, que o clima se define e contagia. A Gaviões, como sempre, fez a sua parte. Sem parar de cantar um minuto incendiava a torcida e inflava a jogadas.

A cada gol que o Palmeiras tomava, um rapaz que acompanha pelo radinho, avisava a galera. Uma parte do estádio gritava alguns segundos antes do placar exibir a piaba do inimigo. Em seguida, parecia que o Corinthians havia marcado um gol, mas não era nada mais que um mero "chupa, porcada".

A felicidade estava realmente completa com o placar de Barueri e Paraná. A Gaviões exibiu sua nova bandeira que cobriu toda uma ala do estádio. As pessoas estavam emocionadas, tudo era festa.

Faltando pouco para os 45 do segundo tempo, a administração soltou a música de Roberto Carlos com a letra "eu, voltei, agora para ficar...". Ao apitar o final, jogadores se emocionavam com a conquista, OK, qual a honra de voltar para a primeira divisão, não é obrigação? Sim, é obrigação, mas tudo que é corintiano é cheio de emoções, dificuldades e muita luta.

Muitos choravam, inclusive eu e meu marido. Lindo sentimento esse de reconhecimento, lágrimas por um time também sem estrelas, mas que agradeceu voltando a seu lugar, de onde nunca deveria ter saído.

Saímos todos do estádio, com o mesmo espírito V de Vendetta. Vencemos!

E ecoando pelas ruas do Pacaembu apenas o lindo verso: Ô, Coringão voltou! Ô, Coringão voltou! Ô, Coringão voltou! Ô, Coringão voltou! Ô, Coringão voltou!



Escrito por Foradacurva às 22h00
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