Marcas da paixão

O celular tocou na mesma hora de todos os dias, mas Anita não conseguia se mover para fazê-lo parar de gritar em seu ouvido. Seu corpo estava cansado, na verdade, sem forças para se mover. Mas sua alma estava vibrando depois da noite anterior.

 

Tinha de ir trabalhar e seu senso de dever não permitia que se atrasasse um só minuto, mas como não aproveitar todas as sensações sentidas na noite anterior? Espreguiçou-se longamente, todos os músculos de seu corpo sentiram o despertar, mas não havia nenhuma parte em que a dor não estivesse presente. Começou a tirar seu pijama ali mesmo, deitada, e encontrou manchas roxas na perna, no braço, na barriga. Então, desistiu de levantar imediatamente, queria relembrar cada movimento, cada frase, cada olhar.

 

Sim, visualmente parecia que havia sofrido, mas não lembrava de ter sentido nenhuma dor. Aliás, tudo fora especial, desde a hora em que se encontraram, desde o momento em que decidiram que aquele dia seria muito especial.  

 

Anita parou para pensar no que estava vivendo. Não era uma paixão apenas baseada na beleza física ou no desejo incontrolável de satisfazer suas necessidades físicas, era uma relação madura, plena. Claro, se portavam como adolescentes, atitudes típicas de quem está redescobrindo o amor, mas se sentia protegida, amada e desejada por aquele homem.

 

Seus corpos se entrelaçaram; ora com sofreguidão, ora com devoção. Foram horas de amor, mas também foram horas de redescoberta, de se conhecer, de apreciar, de poder dar e receber prazer, sorrisos, esperanças e compartilhar sonhos e desejos.

 

Ah! Os olhares! Para Anita não há nada melhor que o momento único e indescritível de quando os corpos se unem pela primeira vez, quando esquece-se nome, problemas e medos. E nada melhor do que olhar para o rosto da pessoa amada e perceber que essa sensação tem igual valor. Não que o ápice não seja o melhor e mais intenso momento, mas ali, antes, é como se fossem apenas um. Único.

 

O lembrete do celular tocou chamando para o mundo real. Seria fácil encarar a rotina do trabalho. Naquele dia, não havia nada mais real do que o que havia sentido e vivido na noite passada.

Escrito por Foradacurva às 23h32 [ ] [ envie esta mensagem ] []

Roberto Carlos

Roberto Carlos está comemorando seus 50 anos de carreira com uma série de shows pelo País. Queria muito ir ao show, mas quando dei por mim, os ingressos já haviam se esgotados. Comentando com uma amiga (Déia, obrigada!), milagrosamente seus pais desistiram de ir e fomos ao show nesta última terça. O local escolhido para as apresentações não é digno do Rei. O Ginásio do Ibirapuera não comporta o número de pessoas, as milhares de velhinhas que foram ver seu cantor preferido podiam cair a qualquer momento naquele piso irregular, os seguranças extremamente mal-educados e tampouco a região suporta tantos carros no horário de pico.

O show estava marcado para começar às 21h, mas a tia do banheiro adiantou que ele entra no palco às 21h20. E ela não errou. Após todos os seus músicos adentrarem o palco, Roberto aparece em seu traje completamente branco. O público, quase 100% feminino (tirando apenas os filhos, netos e maridos que ali foram para agradar suas queridas), não parava de gritar, assobiar. O artista soube aproveitar e sentir essa apoteose. Em minha noite de shows, as pessoa estavam bastante enebriadas pela simples presença de seu ídolo, não gritavam sem parar, não batiam palmas quando a música pedia, apenas cantavam, cantavam e cantavam.

A banda é um arraso, tem até umas guitarras bem potentes ao fundo. Roberto sempre elogia seus músicos e os chama pelo nome. O cantor, aliás, não deixa nada a desejar como intérprete, aguenta duas horas de show sem parar, canta a todo momento e poucas vezes a banda aparece mais que ele para dar alguns minutinhos de fôlego.

A única coisa que me chamou a atenção é que só vi shows de Roberto pela TV e, neles, em nenhum momento o Rei fica alisando o microfone insinuando ser o corpo de uma mulher, cobre o rosto ao falar de uma noite de sexo ou desliza suas mãos pelo corpo para provocar a multidão. As velhinhas ficam enlouquecidas, mas aquilo não é genuinamente Roberto, aquilo sou bastante brega e fake.

Mas sobre o que honestamente interessa nisso tudo, Roberto acabou comigo ao cantar Detalhes, no melhor estilo um banquinho e um violão. Todas as luzes se apagaram quando esse momento aconteceu. Não teve como não me debulhar em lágrimas. Bem, mas a que mais mexeu comigo foi Do Fundo do Meu Coração. Nesse momento, Roberto diz que prefere sempre fazer canções de amor, mas que também fez letras em momentos duro da vida, duro mesmo e canta essa canção com tanta dor, com tanto sentimento. Lindo.

No mais, o show cresce na medida certa. Começa com as músicas mais românticas, como Emoções e Outra Vez. Depois parte para canções saudosas, como Lady Laura e Naquela Casa simples. Em seguida, parte para suas canções mais sexuais, como Cavalgada e Proposta. Quase acabando, retoma as músicas da Jovem Guarda, como É Proibido Fumar e Namoradinha de um Amigo Meu. Para terminar, e aí sim não tem nada de brega, Roberto coroa sua apresentação com Jesus Cristo. Todo mundo sabe cantar, todo mundo se emociona, todo mundo vai embora cheio de esperança.

O show pode ser o mesmo faz muitos anos, as músicas as mesmas, mas ninguém sai de lá com o sentimento de que foi enganado. Ao contrário, é um orgulho estar ali naquele momento, é um orgulho ouvir as músicas que você ouvia quando criança e não entendia muito bem porque sua mãe sempre varria a casa tão feliz ou tão emocionada. Agora eu sei, de verdade.

Escrito por Foradacurva às 21h09 [ ] [ envie esta mensagem ] []