Sr. Vitório

Hoje é um dia muito especial para mim. Meu avô completa 94 anos!

 

Nunca havia convivido com uma pessoa que passou por tanta coisa, que viveu por tanto tempo e que viu tantas novidades. Nesses últimos anos, descobri que de fato todas as entrevistas que li sobre o processo de envelhecimento eram verdade. O fato incontestável é que seu corpo não acompanha seu raciocínio, sonhos e, principalmente, a vontade de viver.

 

Em uma de nossas conversas, perguntei a ele o que queria fazer nos próximos anos. Eu me surpreendi ao entender que não importa qual idade você tenha, todos nós temos sonhos e desejos na vida. Em minha ignorância, imaginava que uma pessoa nessa idade se preocupa em dar o próximo passo, em acordar no dia seguinte. Que nada! Meu avô quer viajar, comprar coisas, ser feliz.

 

Aprendi também que o tempo transcorre de uma outra maneira. Não importa mais quanto pode durar um dia, afinal, se tem todo o tempo do mundo. E aí é que reside o problema porque todos à sua volta não têm tempo; têm que construir, juntar, viver, gastar, comer, dormir e ser feliz. E como ter paciência para reviver o passado tão longínquo de uma pessoa quando você corre atrás de seu futuro? Tarefa inglória ter paciência para escutar tantas vezes as mesmas estórias.

 

Claro, também tem o lado ruim. Você descobre que a frase “quando fica velho, vira criança” é a mais pura verdade. Faz manha, faz birra, não quer tomar banho, não quer comer de tudo, não quer ter regras. A pior delas é o que acontece com a língua, ela perde todos os freios, se diz qualquer coisa sem pensar nas conseqüências. Beira-se a marginalidade porque não pode se punir um velhinho tão fofo e frágil.

 

Bem, esse é o espectro de uma vida em comunidade com um idoso. Mas, para mim, é uma dádiva que ele ainda exista. Vitório me traz as melhores recordações de minha infância. Não tínhamos dinheiro, tampouco lugares para viajar. Todas as minhas férias eram em sua casa no interior e eu nunca tinha motivos para reclamar! Íamos tirar leite da vaca, comíamos gemada, polenta feita no fogão de lenha, carne de boi dos bons e muita fruta no pé. Eu podia me sujar, eu podia brincar e meu vô estava sempre ali, para me dar bronca e para me dar colo.

 

Tento explicar o que nos une. Tento explicar que o amo e admiro. Sim, todos têm defeitos e cometeram muitos erros ao longo da vida, mas meu vô significa para mim cheiro de manga, cheiro de travesseiro de pena de galinha, cheiro de Silvio Santos, cheiro de laranja baiana cortada sem nenhum ferimento e com furinho para gente chupar. Meu vô tem cheiro de saudade, de chuva, de pé de uva, de sol, de gato.

 

Meus olhos têm andado cheios de lágrimas nos últimos tempos com a fragilidade de sua saúde, o desgraçado do joelho arqueou e dói sem dar trégua, o câncer de próstata agora se instalou, o coração que bate fraquinho, fraquinho e a maldita dentadura que ele quis trocar e o machuca. Sei que em breve ele me deixará, mas tento aproveitar cada momento a seu lado, dizendo o quanto amo e o quanto ele é importante para mim. Nada, nada me faz mais feliz que ver aqueles olhinhos azuis brilhando para mim, dizendo baixinho que sou sua neta preferida para não magoar minhas irmãs e me chamando de Sivia. Eu te amo, querido!

Escrito por Foradacurva às 22h48 [ ] [ envie esta mensagem ] []

Aprendendo a ler

Um dos maiores orgulhos de minha vida foi quando ensinei Cibele, uma mulher com Down, a ler e escrever. Foi uma sensação única quando ela aprendeu o a, depois o i e depois o b; e que essas letrinhas juntas formavam bia. Depois de juntar as palavras nada pode ser mais espetacular que ler de verdade, ver as palavras fazerem sentido, refletirem de alguma maneira em sua alma. Eu tinha apenas 17 anos, mas dar aula me moldou para minhas escolhas no futuro.

Sempre fui tão apaixonada pelas palavras que escolhi fazer Jornalismo. Eu achava que podia mudar o mundo, que podia consertar as injustiças, que podia tirar as pessoas da ignorância. É por isso que amo textos que me teletransportam para algum lugar, que conseguem me fazer sentir o que o outro sentiu, mesmo que seja uma fagulha.

Hoje, passados alguns bons anos de formada descobri que ler é muito mais que compreensão de texto, é compreender a vida, as pessoas e o que elas querem nos dizer todos os dias. Leio mal, muito mal.

Quero poder consertar isso, tentar entender nas entrelinhas o silêncio, uma frase, um gesto. Quero compreender os movimentos, a politicagem, os pedidos feitos que para mim não fazem nenhum sentido. Quero poder ler melhor para me proteger também. Sou facilmente lida, não escondo meus sentimentos ou posições sobre nada. Sou tão transparente que algumas pessoas usam o que sabem de mim contra mim.

Passamos a vida escondendo coisas debaixo do tapete, à espera que o outro entenda sem que a gente precise dizer. Sim, é preciso ter coragem para se abrir, mas é preciso ainda mais coragem para esconder, pois no momento em que tudo vir à tona, como suportar as consequências?

Quero ler direito, mas isso exige que o outro também permita, queira. Sei que nem tudo pode ser dito, mas que tal o que precisa realmente ser dito, que possa ser realmente lido? Ler significa espiar a alma do outro, deixar ser lido é permitir acesso a uma fagulha importante de você.

Escrito por Foradacurva às 18h05 [ ] [ envie esta mensagem ] []